Quinta-feira, Novembro 24, 2011

Toro Y Moi - "Freaking Out" (EP)



Após o bem sucedido “Underneath The Pine”, lançado no início de 2011, o multi-instrumentista Chad Bundick, mais conhecido como Toro y Moi, percebeu o que muitos dos seus ouvintes já haviam apreciado em seu segundo álbum de carreira. Os viajantes grooves colados à mistura perfeita de Ambient-Rock, era o que mais se destacava em seu trabalho. Eis que em menos de oito meses depois do lançamento de seu mais aclamado disco, Toro arremessa ao público o inflamado “Freaking Out”. O EP é na verdade uma grande colagem de balanços repartidos que não fariam feio em uma pista de dança, ou nas saudosas FMs de Soft-Rock do início dos anos 80. A força-motriz dos singles “New Beat” e “Still Sound”, ambos de “Underneath...” são elevadas exponencialmente, para criar as cinco e únicas matadoras faixas deste mini-álbum. As atmosferas vocais e os efeitos inspirados na Chill-Wave do Kings Of Convenience e Whitest Boy Alive presentes no último álbum saem de cena, para dar lugar ao contágio feroz das batidas dançantes, remetentes à agonizante Euro-Disco do final da década de 70. Faixas como “Sweet” e “I Can Get Love” trazem os sintetizadores do passado para brincar com as erupções de graves e agudos da “House-Music”. Ao final, os vocais de Chad complementam e amarram todo o disco, lembrando muito os de Prince (isso mesmo) e Michael Jackson (fase “Off The Wall”). Com tantos atributos reunidos, a única negativa que “Freaking Out” possui é por ser extremamente curto. Antes mesmo de você aproveitá-lo, ele já chegou ao fim, assim como a excelente apresentação de Toro Y Moi na última edição do festival Planeta Terra.





Terça-feira, Maio 31, 2011

Melhores Discos de 2010, Nº 1) Tame Impala - "Innerspeaker"




É sempre comum uma banda aparecer com uma sonoridade ímpar e chamar, logo de cara, a atenção da imprensa musical. Agora, é difícil uma mesma banda trazer um som de dinâmicas únicas em seu disco de estréia e agradar, espontaneamente, público e mídia. Caso assim, se encaixa perfeitamente ao do Tame Impala. Este quarteto australiano já explicitava em seu EP de estréia seu Garage-Rock de influências densas. Com “Innerspeaker” (2010) a banda alcançou notoriedade através de um rock psicodélico repleto de efeitos incomuns que há muitas décadas não se ouvia no rock convencional. Percebe-se a influência direta daquela aura sônica de “Disreali Gears” do Cream como centro inspirador destes jovens hippies da Oceania. A partir daí, o Tame Impala mostra originalidade dando atmosferas voláteis ao seu som. A bateria soa seca e grudada ao chão, enquanto isso, as guitarras se condensam no ar como se fosse poeira cósmica. Quando o peso é necessário, elas caem por terra pesando toneladas em forma de fuzzes borrados e saturados. Escute “Expectations” e terá uma prova disso. “Lucitdity” convida o ouvinte a levantar vôo a bordo de um confortável Space-Rock em direção ao infinito. A cada música do disco, nota-se o salto criativo do quarteto e o vocal de Kevin Parker se parecer gradativamente com os de John Lennon. Dave Fridmann, o produtor-mor da psicodelia contemporânea (o mesmo de “Soft Bulettin” do Flaming Lips), colabora ainda mais para que “Innerspeaker”, torne o Tame Impala em umas das melhores e mais interessantes novidades musicais da atualidade.






Quinta-feira, Maio 19, 2011

Melhores Discos de 2010, Nº 2) Roky Erickson and Okkervil River - "True Love Cast Out All Evil"




Depois de quase quinze anos sem lançar nenhum álbum, eis que o eterno líder do 13th Floor Elevators ressurge com um álbum notadamente introspectivo. “True Love Cast Out All Evil” é uma grande autobiografia musicada de Roky Erickson. O disco na verdade, traz um apanhado das melhores demo-tapes que Roky gravou em seu período na Clínica de Segurança Máxima para Doentes Criminais do Texas, no início da década de 70. Sua estadia no hospital psiquiátrico foi decorrente de sua posse de maconha, no fim da década de 60. Erickson então, ficou trancafiado na clínica por anos e foi forçado a alegar insanidade para ser ver livre da prisão. Neste período, entre choques e brabas alucinações, Roky nunca deixou de compor e foi daí que saiu o material bruto para este álbum. As demos originais aparecem aqui e ali, mas o que surpreende mesmo é como as musicas de Roky conseguiram ganhar uma nova sonoridade e identidade, com os arranjos do Okkervil River. O vocalista da banda, Will Shef, produziu a maioria das faixas de forma delicada e competente. A grande prova vem em “Devotional Number One”, onde a demo original da canção é invadida por belíssimos arranjos de cordas ressaltando o dobrado tom melancólico da música. E o disco segue assim, exuberante e surpreendente. As erupções lo-fi das antigas demotapes soam como assustadores flash-backs mentais, vindo direto da mente de Roky. Quem for esperar aquele clima Horror-Rock dos seus primeiros trabalhos-solos, pode até se decepcionar, mas será recompensado com uma bela sonoridade que lembrará muito os tempos de 13th Floor Elevators, na fase “Easter Everywhere”. Destaque para os acordes afiados de “John Lawman”, e as autobiográficas “Bring Back The Past” e “Goodbye Sweet Dreams”. Em seus plenos 63 anos, após tortuosos momentos de sua vida, Roky Erickson finalmente volta ao seu ápice de composição. Esta é a mesma força interior que pariu discos como “Plastic Yono Band” (John Lennon), “Bryter Later” (Nick Drake) e “AstralWeeks” (Van Morrison). Assim como eles, Roky não esperou a morte para soar comovente e confessional.




Quarta-feira, Março 16, 2011

Melhores Discos de 2010, Nº 3) Radio Dept. - "Clinging To A Scheme"




O Radio Dept. sempre foi taxado de ser uma banda Shoegazing tardia. Os vocais suaves sempre escondidos por uma parede de efeitos são constantemente a marca registrada deste grupo sueco. Entretanto desde "Pet Grief" (2006) o quarteto explicitava inusitadas influências de Etherall-Pop e Sinth-Pop oitentista, mesclando teclados em cima de acordes afiados de guitarra. Seguindo nessa vertente, eis que "Clinging To A Scheme" emerge à superfície como o melhor álbum do quarteto. Pode-se dizer que ao ouvir este terceiro álbum destes suecos, nos deparamos com a terceira geração do então chamado "Wall Of Sound". Conceito criado pelo produtor Phil Spector na década de 60 e arrebatado pelo Jesus & Mary Chain nos anos 80 com guitarras, agora é a vez do Radio Dept mostrar como cobrir o ouvinte com o maior número possivel de teclados e efeitos. Caso raro como o de "Clinging To A Scheme", o grupo consegue nos envolver com as melhores melodias e climas inebriantes."Domestic Scene" abre o disco com dedilhados emocionados lembrando as melhores paisagens acústicas de Elliot Smith. Quando a música acaba, entra um improvável prelúdio retirado de "Style Wars" (aclamado documentário sobre o grafite novaiorquino) colado aos trinados celestiais de "Heaven's On Fire". Percebe-se a vontade do Radio Dept de contextualizar suas composições e é assim que o álbum prossegue. A sonoridade lembra em vários momentos o casamento perfeito das dinâmicas melódicas do My Bloody Valentine com a exuberância tecnológica do Pet Shop Boys. O resultado disso é um album de tons melancólicos e de músicas memoráveis que irão ressoar dias chuvosos a fio na cabeça de quem as ouve. A voz de Johan Duncanson continua suave e laconicamente distorcida, surpreendendo em maneirismos melódicos como na quase R&B "David" e em "Never Follow Suit" (com outro trecho de "Style Wars" linkando a canção ao seu fim). Como na capa, o Radio Dept. alcança em "Clinging To A Scheme" a representação mais pura de seu som. São suspiradas e sinceras reflexões envoltas em doses de fumaça e solitária neblina.






Terça-feira, Março 08, 2011

Melhores Discos de 2010, Nº 4) Delorean - "Subiza"



Desde o surgimento do grupo em 2000, o Delorean sempre explorou o campo das infinitas possibilidades da música eletrônica. Mas somente foi com o lançamento do EP "Airton Senna" (2009) que este quarteto conseguiu projeção fora de Barcelona. Oriundos do País Basco, (mais precisamente Zarautz, província de Guipúzcoa) o nome do piloto brasileiro deu sorte o bastante a estes rapazes permitindo que eles remixassem oficialmente singles do Franz Ferdinand e do The XX, além de entrar em turnê abrindo shows do grupo sueco MIike Snow. Na sequência de todo o hype, "Subiza" sai em 2010 e traz à tona todo o potencial do Delorean. Nota-se no álbum a referência direta ao Acid-House noventista, aquela vertente eletronica que imortalizou grupos como o The Orb e lendário DJ Andrew Weatherall. Mas a maior qualidade do "Subiza" é mesmo a facilidade que o grupo monta canções pop em cima de estruturas eletrônicas sem que nenhum desavisado suspeite de que ali é um quarteto executando-as em vez de um único Disk-Jóquei. O disco mergulha profundo nos Anos 90 e traz de lá os melhores tons dos álbuns "Técnique" (New Order) e "Screamadelica" (Primal Scream): ambos grupos de Rock aclamados pelo seu pioneirismo em fusões com a música eletrônica. Outra qualidade soberba de "Subiza" são os vocais melódicos e desajeitados de Ekhi Lopetegi remetendo diretamente a Bernard Summer enquanto o restante do grupo defere mutações sônicas repletas de samplers vocais e batidas entrecortadas. Músicas como "Stay Close" e "Real Love" são o que pode se chamar de standards tardios do Alternative Club/Dance. Já "Simple Graces" é um Madchester energético e "Warmer Places" te convida a cair no balanço de um Funk-House frenético e contagiante. Com o nome tirado do modelo de carro imortalizado no filme "De Volta para o Futuro", o Delorean adquire as qualidades do veículo no longa-metragem e nos transporta para os primórdios das festas Raves de Ibiza do início década de 90. Local e época que como em "Subiza", o verão e o pôr-do-sol parecem realmente não ter fim.





Quinta-feira, Março 03, 2011

Melhores Discos de 2010, Nº 5) Black Rebel Motorcycle Club - "Beat The Devil's Tattoo"


A maturidade chegou precocemente para o Black Rebel Motorcycle Club em 2005, quando naquele ano eles lançaram o impecável Howl. O disco era uma fusão de Folk-Rock, Rock n' Roll clássico e paisagens sonoras acústicas repletas de melancolia. Com o álbum, este Power-Trio de Los Angeles adquiriu respeito do grande público ao mesmo tempo que agonizava internamente: Howl foi gravado somente com o vocalista/guitarrista Peter Hayes e o baixista Robert Levon enquanto o baterista Nick Jago já havia sido sumariamente expulso da banda por envolvimento em drogas pesadas. Ao mesmo tempo que o trio chutava para longe o seu legado de guitarras distorcidas dos seus dois álbuns anteriores (B.R.M.C. de 2000 e "Take Them On, On Your Own" de 2004), Peter e Robert readmitem Jago para tocarem durante a turnê, porém já percebia visualmente que esta formação não duraria muito tempo. Em 2008, Nick novamente sai da banda sendo substituído por Leah Shapiro, que já havia tocado bateria com o The Raveonettes e o Dead Combo, dando um sopro de energia no grupo durante as apresentações ao vivo. Com o nome tirado de um trecho do conto do escritor Edgar Allan Poe, "Beat The Devil's Tattoo" é o tipico álbum de um grupo que não tem mais nada a perder. Entretanto, é do perigo e da fúria que o Black Rebel Motorcycle Club se alimenta para supreender quem os ousam subestimá-los. A faixa título abre o disco numa levada cortante de violões ritmados para depois emendarem a pedrada "Conscience Killer" inflamada de espírito Punk. "Cause we don't need all that much, cause we never really had a choice...", canta Peter enquanto um mundo de distorção corre atrás dos seus vocais. Escuta e percebe-se claramente que a banda não pertence mais a geração que outrora fora chamada de o "Novo-Rock", isso faz do Black Rebel um monstrengo musical imprevisível e relevante. O trio expande suas influências musicais ao extremo expondo versatilidade sem esquecer suas sonoridades básicas. "Mama Taught Me Better" é um Pós-Punk com estruturas de Kraut-Rock enquanto "River Styx" é um Blues-Rock sujo e pantanoso. Completando 10 anos na estrada ano passado, o Black Rebel Motorcycle Club faz do "Beat The Devil's Tattoo" o disco que reafirma suas identidades. Em pleno século 21, é difícil ver uma banda que ainda ouse fazer Rock n' Roll sem firúlas tecnológicas, apostar no preto e ainda usar displicentemente jaquetas de couro em palco. São esses e outros motivos que fazem do B.R.M.C. um dos grupos mais competentes da década que passou.






Quarta-feira, Fevereiro 02, 2011

Melhores Discos de 2010, Nº 6: Black Mountain - "Wilderness Heart"



Foi quando o rótulo Pós-Rock já estava saturado o bastante para definir qualquer banda que se aventurasse por experimentalismos barulhentos de mais de 5 minutos que o Black Mountain lançou em 2008 o álbum "In The Future". Longe do enfadonho termo, o disco na verdade era uma perfeita combinação de riffs pesados, munidos de arranjos inspirados no Rock Progressivo convertidos inexplicavelmente para a sonoridade contemporânea. Com o mérito desse álbum, este quinteto canadense foi aclamado pelo seu som Neo-Prog e ainda chamou a atenção da imprensa especializada para várias outras bandas que faziam um som similar (Howlin Rain, Creature With The Atom Brain, Comets On Fire etc...). Através de épicas apresentações e entrevistas que deixavam claras a pose lisérgica do grupo, a expectativa para o sucessor de "In The Future" aumentava consideravelmente. E eis que com "Wilderness Heart" o Black Mountain joga essa expectativa para bem longe. Entretanto, o grupo mostra que ainda tem belos truques escondidos na manga. Neste terceiro trabalho, a atmosfera progressiva é deixada de lado para dar lugar a carregadas influências de Hard Rock e primórdios do Heavy Metal. Mas o que chama mais atenção nesse novo disco é a facilidade com que o Black Mountain consegue unir tantas referências batidas do Rock Clássico de modo ainda bem original. "The Hair Song" abre o álbum e é puro Zeppelin convertido a estética sonora dos Black Crowes. O guitarrista Stephen Mcbean e a vocalista Amber Weber duelam na maioria das faixas, porém é o vocal de Amber que chama mais atenção: sua voz doce e angelical (bastante similar a de Annie Haslam do extinto Renaissance) contrasta e complementa perfeitamente o instrumental do grupo. A partir de mais audições, percebe-se duas faces distintas no álbum. "Old Fangs", "Lets Spirits Ride" e "Rollercoster" são pedradas de acordes musculosos inspiradas no melhor do Deep Purple, Hawkwind e Blue Cheer. Já "Buried By The Blues", "The Space of Your Mind" e "Sadie" são lindas introspecções acústicas no maior clima King Crimson (fase "In the Court of Crimson King") e Floyd (fase "Wish You Were Here"). Com essas duas facetas, "Wilderness Heart" parece um Yin-Yang sonoro: ora reflexivo e calmo, ora distorcido e alto na medida certa. Conceito místico criado por Neo-Hippies musicalmente bem intencionados.